Vivemos cercados por promessas de um futuro totalmente otimizado. Da casa inteligente que prevê nossos hábitos aos assistentes de Inteligência Artificial que prometem redigir nossos e-mails e organizar nossas vidas, a tecnologia parece caminhar para eliminar qualquer tipo de atrito do nosso cotidiano. Mas a que custo? Será que, ao buscar a máxima eficiência, não estamos abrindo mão daquilo que nos torna essencialmente humanos?
Essa é a provocação central de Jill Lepore, renomada historiadora de Harvard e escritora da prestigiada revista The New Yorker. Em seu novo livro, The Rise and Fall of the Artificial State (O Declínio e a Queda do Estado Artificial), Lepore faz um alerta urgente sobre como a obsessão das Big Techs em quantificar cada aspecto da nossa existência está minando as bases da sociedade civil e da própria democracia.
Como jornalistas de tecnologia, costumamos celebrar os avanços dos novos gadgets. No entanto, o diagnóstico de Lepore nos obriga a dar um passo atrás e questionar: o “Estado Artificial” já se instalou em nossas salas de estar?
O que é o “Estado Artificial” e como ele nos monitora
Para entender o conceito de Jill Lepore, precisamos olhar para além dos nossos smartphones. O “Estado Artificial” é o sucessor silencioso do estado democrático tradicional. É um cenário onde as funções públicas e o debate social foram quase que inteiramente privatizados e entregues ao controle de corporações multinacionais de tecnologia.
Pense na “praça pública” moderna. Hoje, ela não é um espaço físico gerido pelo interesse comum, mas sim plataformas digitais cujos algoritmos são programados para uma única função: monetizar a nossa atenção e o nosso engajamento por meio da indignação. A consequência direta disso é a desumanização das interações. Quando somos transformados em pontos de dados para alimentar modelos de publicidade, nossa complexidade como cidadãos é esmagada.
O perigo se intensifica com a proliferação massiva de bots. Estima-se que plataformas como X (antigo Twitter), Facebook e TikTok já possuam mais contas automatizadas do que usuários reais. Quando o diálogo que molda a opinião pública passa a ser controlado por robôs — sejam eles de corporações, governos estrangeiros ou cibercriminosos —, a soberania da sociedade civil começa a desmoronar.
A armadilha da personalização extrema e a perda da privacidade
A história da tecnologia de consumo é repleta de campanhas de marketing brilhantes. Nos anos 1980, o computador pessoal foi vendido como o ápice da emancipação humana; nos anos 1990, a internet prometia democratizar o acesso à informação global. Hoje, o discurso se repete com a Inteligência Artificial democrática.
Contudo, a realidade prática mostra que fomos convertidos de cidadãos ativos a consumidores passivos. Lepore relembra o momento exato em que percebeu essa mudança no início dos anos 2000, ao começar a receber anúncios direcionados de produtos para bebês logo após dar à luz, sem nunca ter compartilhado essa informação deliberadamente. Hoje, nossos assistentes de voz e dispositivos inteligentes nos escutam continuamente, tornando a publicidade direcionada algo tão onipresente que sequer a questionamos.
O próximo passo dessa evolução é ainda mais preocupante: a internet dos bots. Especialistas apontam que, em breve, a rede mundial de computadores será usada predominantemente por agentes de IA realizando tarefas para outros agentes de IA. Se delegarmos até mesmo a nossa capacidade de escolha e de consumo para robôs, o que restará da nossa autonomia individual?
O “Techlash” e o resgate da nossa humanidade
Apesar do cenário distópico, Jill Lepore enxerga pontos de esperança no horizonte. O principal deles é o crescente movimento de rejeição ao domínio absoluto das Big Techs, conhecido mundialmente como Techlash. Esse descontentamento não vem de teóricos isolados, mas de jovens estudantes que, em cerimônias de formatura ao redor do mundo, vaiam CEOs de empresas de IA e exigem o direito a carreiras e trabalhos significativos que não sejam sumariamente automatizados.
Outra frente de resistência ocorre no nível comunitário. Cidadãos comuns estão se mobilizando para impedir que servidores de dados gigantescos e de alto consumo energético sejam construídos em seus bairros, desafiando a narrativa de que o progresso tecnológico deve passar por cima de qualquer decisão local. Essa resistência mostra que as pessoas ainda valorizam o espaço físico e as decisões democráticas reais.
Para Lepore, o antídoto contra o Estado Artificial é recuperar o valor do “atrito” humano. A verdadeira democracia exige debate face a face, escuta ativa e a aceitação de que nem tudo na vida precisa ser otimizado por uma máquina. Atividades cívicas tradicionais, como o serviço de júri popular, sobrevivem justamente porque confiamos na capacidade de julgamento moral de outros seres humanos — algo que nenhum modelo de linguagem, por mais avançado que seja, jamais conseguirá replicar.
Conclusão
A tecnologia e a automação residencial trouxeram facilidades inegáveis para o nosso dia a dia, mas o alerta de Jill Lepore nos lembra que não podemos colocar nossa cidadania no piloto automático. Ao permitirmos que sistemas fechados de IA decidam o que consumimos, como nos informamos e até mesmo como devemos votar, corremos o risco de nos tornar passageiros em nossa própria história.
Diante desse cenário, como você avalia o papel da tecnologia na sua rotina? Será que estamos trocando nossa liberdade de escolha e privacidade pela pura conveniência dos algoritmos? Deixe sua opinião nos comentários abaixo!
